A Força da Comunhão

Autor deste artigo: Pedro Arruda
Podemos comparar a comunhão com uma pedra de gelo dentro de um copo d’água. Apenas 10% dela ficam aparentes acima da superfície.
A parte visível de comunhão é a comunidade sustentada pelos 90% invisíveis. Entretanto, como o aspecto visível é muito mais valorizado e trabalhado, a comunidade fica sem sustentação.
Dietrich Bonheffer chamou essa parte “invisível” de Disciplina Arcana; ou seja, aquilo que é um mistério para o público equivale à vida íntima e a seus aspectos subjetivos. Jesus nutria uma vida de intimidade com o Pai muitas vezes percebida por aqueles que lhe eram mais próximos. Por meio deles, sabemos, por exemplo, que Jesus orava sozinho. Somente esses indivíduos desfrutaram a intimidade das últimas horas de sua encarnação, tiveram os pés lavados por ele e receberam diretamente dele o pão e o vinho na última ceia.
Igualmente, a igreja que surgiu imediatamente após os ensinamentos de Jesus utilizava tal prática. O espalhafatoso fenômeno público de Pentecoste foi precedido por dez dias de uma reunião particular no cenáculo. Muita coisa acontecia em público, mas especialmente os apóstolos não descuidavam da vida de oração.
As acusações feitas aos cristãos perseguidos eram de que praticavam o infanticídio (sacrifício de crianças) e que se alimentavam de carne e sangue humano em rituais noturnos e secretos. Essas presunções demonstram que os cristãos mantinham determinadas atividades que fugiam do conhecimento da sociedade em geral.
Com o passar do tempo, algumas mudanças foram introduzindo-se lentamente na realidade eclesiástica. No aspecto privativo, além da vida íntima com o Senhor, outros segredos passaram a ser cultivados, dando abrigo a atitudes e ações escandalosas, principalmente da parte da liderança. Esta se esforçava para impedir que tais segredos chegassem ao conhecimento da sociedade. A instituição eclesiástica não aprecia a prestação de contas.
Além disso, a vida íntima em privacidade com o Senhor passou a sofrer a concorrência cada vez maior das demandas da vida pública e entrou num processo de esvaziamento. Atualmente, grande parte das reuniões privadas é destinada a planejar as estratégias das atividades públicas.
A igreja foi abandonando seu caráter de intimidade e tornando-se cada vez mais pública. Nesse processo, sem perceber, aos poucos foi também perdendo seu pudor. A sociedade já não precisa se dar ao trabalho de presumir seus erros, pois estes também são públicos.
A igreja de Jerusalém perseverava na doutrina (didaquê) dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações. Esses quatro pilares compunham a vida íntima da igreja que se expressava como uma comunidade de amor à sociedade. Contudo, tais atividades eram ignoradas pela sociedade, desenvolvidas apenas entre os cristãos, estando subjacente no meio deles. Enquanto isso, a sociedade ouvia as pregações (kerigma), via os sinais e as maravilhas e observava o modo de vida dos cristãos. Esta era a parte visível, mas menor e produzida pela prática da dinâmica oculta daqueles cristãos.
Que tal tentarmos fazer como aqueles primeiros cristãos e inverter a lógica atual que valoriza mais o exterior do que o interior da vida eclesiástica?

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